
A porta fechou-se atrás dele. No lado de fora, a rua estendia-se como sempre: carros a passar, vozes soltas, passos que iam e vinham sem intenção de parar. Tudo estava no mesmo lugar.
A bengala foi aberta com cuidado. O espaço à volta parecia maior. Os sons vinham de todos os lados. Cada ruído pedia atenção. O corpo avançou devagar. Não por medo, mas por escuta. A bengala tocou no chão, reconheceu o passeio, desenhou o limite entre o seguro e o desconhecido. O ritmo instalou-se aos poucos, ainda hesitante, ainda à procura de confiança.
Um instante curto em que se percebeu a forma atenta como o corpo se orientava pelo som do semáforo. Como a bengala confirmava o alinhamento do passeio. Como a respiração se mantinha firme, apesar da tensão invisível.
Nesse espaço, ninguém falou.
O sinal sonoro mudou. O corpo avançou. A travessia fez-se inteira, sem pressa, sem desvios. Do outro lado, a bengala encontrou o passeio e o pé subiu com segurança. Um sorriso discreto surgiu, daqueles que não precisam de plateia.
A rua continuou. Os carros voltaram a passar. Tudo retomou o seu ritmo habitual.
Autora: Marta Alves

