Para além do olhar: perder-se (e reencontrar-se)

Saiu do metro com a tranquilidade de quem já percorreu aquele caminho muitas vezes. As portas fecharam-se atrás de si. Cá fora, a bengala tocou no chão. Dois passos. Três. O corpo avançou com a confiança da memória.

Mas houve um detalhe que falhou.

O eco não soava igual. O cheiro da padaria da esquina não apareceu no momento esperado. O trânsito parecia vir de uma direção diferente. Pequenos sinais, quase invisíveis para quem vê, tornaram-se evidentes. A bengala encontrou um obstáculo que não fazia parte do percurso. O passeio parecia mais estreito. Ou talvez fosse apenas a incerteza a ocupar espaço.

O passo abrandou.

Perder-se raramente acontece. O corpo para, não por desistência, mas para escutar melhor. A respiração ajusta-se. A mão segura a bengala com mais atenção. O corpo que aparenta estar desorientado começa, afinal, a reorganizar-se. A cabeça inclina-se ligeiramente para captar melhor os sons. Um carro passa e revela a direção da avenida. Uma porta metálica abre-se ao longe. A memória recompõe o mapa interior. A bengala testa o espaço à esquerda, depois à direita. 

O corpo roda devagar. Dá meia-volta. Conta passos. E então, finalmente, surge o som conhecido da padaria. O cheiro chega logo depois, discreto, mas certo. O percurso recompõe-se.

Perder-se fez parte do caminho.

Autora: Marta Alves

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