Para além do olhar: Um passo antes de ajudar


A rua estava cheia, mas quase ninguém parecia dar por isso. O movimento era
constante, feito de passos apressados e de corpos que avançavam com um
destino definido. Sacos roçavam nas pernas, os ecrãs dos telemóveis
iluminavam rostos distraídos, vozes cruzavam-se sem realmente se
encontrarem. O semáforo mudava de cor no tempo certo. A cidade cumpria o
seu ritmo habitual. No meio dessa pressa organizada, alguém parou.


Não foi uma paragem brusca, nem algo que chamasse a atenção. Foi antes
uma suspensão breve do corpo, quase impercetível, como quem escuta melhor
o chão antes de avançar. A bengala desenhava um arco à frente, tocava no
passeio, regressava à mão. Havia ali um ritmo próprio, calmo, repetido, seguro.
O chão falava e o corpo respondia.


Do outro lado, o impulso surgiu antes do pensamento. Um corpo que abranda
de repente, um olhar que se fixa, uma ideia curta e imediata: precisa de ajuda.
E, antes que essa ideia se organize, o pé já avança, a mão começa a estender-
se, o gesto prepara-se para acontecer. Ajudar parece sempre a escolha certa.
É quase um reflexo. Crescemos a ouvir que ajudar é ser educado, atento,
humano. E, muitas vezes, é mesmo.


Mas há um instante pequeno, quase invisível, que se perde entre o ver e o agir.
Um intervalo que raramente notamos, porque tudo à nossa volta exige rapidez,
resposta imediata, soluções prontas.


É nesse intervalo que a história pode mudar.


Entre o movimento da bengala e a mão que se estende, cabe um segundo. Um
segundo em que nada acontece. Um segundo em que ainda não se tocou, não
se puxou, não se decidiu por ninguém. Um segundo em que o corpo pode
parar e o pensamento pode respirar. Nesse espaço cabia uma pergunta
simples, quase discreta, daquelas que não ocupam lugar nem roubam tempo,
daquelas que reconhecem o outro como alguém que sabe onde está.

— Precisa de ajuda?


A resposta chegou tranquila, sem pressa, como quem fala a partir de um lugar
seguro. Um sorriso abriu-se, daqueles que não precisam de ser vistos para
serem percebidos.
— Não, obrigado. Já sei onde estou.


E a pessoa voltou a avançar. Com tempo. Com atenção. Com a bengala a
marcar o caminho e o corpo a seguir o ritmo certo. O mundo respondia a cada
toque no chão, a cada som, a cada pequeno sinal que passava despercebido a
quem corria.


A mão que ia ajudar ficou suspensa por um instante e depois baixou devagar.
Não houve embaraço, nem erro, nem constrangimento. Houve apenas um
entendimento silencioso. A perceção de que ajudar, por vezes, é saber recuar.

Autora: Marta Alves

Para aprofundar a reflexão sobre a importância de reconhecer o outro, deixamos-vos com um vídeo da autora, onde partilha mais sobre este tema. Fiquem atentos, pois esta será uma rubrica mensal, onde iremos explorar juntos diversas perspetivas e histórias que nos convidam a parar, ouvir e agir com empatia.

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