
O supermercado estava cheio, iluminado demais, barulhento demais. As luzes refletiam-se nas embalagens brilhantes, as cores gritavam promoções, os sons misturavam-se num fundo contínuo de vozes, caixas a apitar e carrinhos a bater uns nos outros. Para muitos, era apenas mais uma ida às compras. Para outros, era um território que exigia atenção redobrada.
Junto a uma prateleira alta, uma pessoa com baixa visão avançava devagar. O rosto aproximava-se das embalagens muito mais do que o habitual. A mão percorria as caixas com cuidado, sentindo limites, procurando referências. O tempo ali tinha outro ritmo. Ler não era rápido. Comparar exigia aproximação, paciência, tentativa.
Atrás, o corredor começava a encher. Alguém travou o carrinho. Alguém se desviou. O desconforto apareceu sem pedir licença. A cena parecia clara para quem observava de fora: dificuldade, demora, obstáculo.
O impulso vinha acompanhado de boa intenção. Um passo em frente, uma mão pronta para apontar, uma voz preparada para dizer é este, é mais barato, quer que lhe leia? A ajuda apresentava-se como solução imediata para encurtar aquele tempo que incomodava.
Mas havia um instante antes disso.
Um instante em que se podia reparar na forma segura como a pessoa organizava a informação. Na maneira como confirmava o nome do produto, como distinguia embalagens quase iguais através de pequenos detalhes aprendidos com a experiência.
Nesse intervalo, ninguém interveio.
Depois de mais alguns segundos, a escolha ficou feita. A embalagem certa foi colocada no carrinho. O corpo endireitou-se ligeiramente, como quem conclui uma tarefa exigente, mas familiar. E o percurso continuou pelo corredor seguinte.
O espaço voltou a fluir. A pressa recuperou o seu lugar.
Mas ficou algo suspenso no ar. A perceção de que a deficiência visual não é sinónimo de incapacidade, mas de outro modo de estar, de outro tempo necessário para fazer o mesmo gesto simples: escolher o que levar para casa.
Autora: Marta Alves

